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Silagem de milho: e se a garagem do seu carro fosse de lona?

POR DANIEL AUGUSTO BARRETA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/03/2021


Qual é o impacto que vou ter ao optar por uma lona de vedação de silo de menor qualidade?

A silagem de milho é um dos alimentos mais comuns na dieta de vacas leiteiras no Brasil. O processo de ensilagem demora entre 1 e 3 dias na grande maioria das propriedades pequenas e médias. Entretanto, o fornecimento da silagem é contínuo nos sistemas confinados, e mesmo nos sistemas à base de pastagem o volumoso é recorrentemente utilizado, especialmente em situações de entre safra de forragens.

No dia da colheita do milho para confecção da silagem é importante que todas as operações funcionem harmonicamente, isto inclui a afiação das facas da ensiladeira (pelo menos 2x ao dia, caso a colheita não seja realizada por uma colheitadeira automotriz), transporte do material da lavoura até o silo, descarga e distribuição no silo e compactação.

Estes processos possuem alguns pontos-chave, como:

  1. Necessidade da quebra dos grãos de milho em frações menores para facilitar o acesso dos micro organismos ruminais nestes;

  2. Distribuição da forragem colhida em camadas com espessura inferior a 30cm, pois camadas espessas dificultam a compactação;

  3. Largura do silo suficiente para que o trator transpasse os pneus e não permita a ocorrência de áreas sem compactação entre outros.

Embora tais informações sejam muito importantes, não são novidades, e estão bastante disseminadas entre produtores e técnicos de campo. Nesse sentido, abordaremos aqui a importância da vedação correta da silagem, um procedimento que, por vezes, pode ser negligenciado nas propriedades.

Em geral, a vedação do silo ocorre após o término de uma jornada muito trabalhosa para os produtores. No entanto, é preciso ter muita cautela nesta etapa, pois possíveis erros podem colocar em risco todo o empenho gasto em todas as etapas anteriores, desde a escolha do híbrido.

A silagem, ou melhor, a conservação do material ensilado, é o resultado da fermentação anaeróbia dos carboidratos do milho que inicia logo após o “consumo” de todo o oxigênio remanescente no silo após o fechamento. A partir do momento em que o silo é aberto, ocorre novamente o contato da silagem com o oxigênio, dessa forma, microrganismos oportunistas podem se proliferar e iniciar a deterioração do material (silagem mofada, escura) que normalmente inicia após 1 ou 2 dias de contato do painel do silo com o ambiente externo.

Deste modo, ao imaginarmos um silo aberto e considerando o oxigênio como um “vilão” para a conservação do material, a única barreira que separa o ambiente externo (com oxigênio) do interno (sem oxigênio) é a lona do silo. É a garantia de manutenção da qualidade da silagem!

Nesse sentido, há alguns pontos a serem (re)pensados, principalmente no que tange a qualidade do material a ser utilizado. Há muitas opções de lonas disponíveis no mercado, este é um segmento em ascensão, além disso, percebe-se a popularização de lonas chamadas de “barreira de oxigênio”, as quais reduzem consideravelmente o fluxo de ar através da lona (sim, as lonas em geral permitem o fluxo de oxigênio), e que até alguns anos atrás eram utilizadas apenas no exterior.

Esta disparidade de produtos abre precedente para que sejam vendidos materiais com preços muito distintos. Neste sentido, o produtor deve estar totalmente esclarecido e ciente do material que está adquirindo ao efetuar a compra.

No caso de silos do tipo trincheira (de terra), o fluxo de oxigênio também ocorre pelas laterais, de modo que a colocação de uma lona secundaria, não necessariamente nova, ajuda a contornar este problema. Além disso, como esta é colocada durante a ensilagem, contribui para evitar a contaminação da silagem com terra ou outros materiais. Na figura 1 temos um esquema que ilustra o procedimento de vedação com o uso de uma lona lateral.


Quanto tempo a silagem ficará estocada? Em alguns casos o silo é aberto logo após a finalização do processo de conservação (cerca de um mês), mas há situações em que o silo permanece fechado por meses, talvez anos.

Nos casos em que o silo permanecerá por um longo período fechado, a qualidade da lona é ainda mais relevante, pois uma grande parcela dos materiais disponíveis no mercado não possui tratamento anti raios UV, ou seja, a exposição direta da lona do silo ao sol causa a degradação gradual do material, mesmo que isso não seja observado visualmente, o que por sua vez permite um fluxo maior de oxigênio por meio da lona (fica mais permeável), logo, oxigênio=micro organismos, migro organismos=degradação do material ensilado (camada escura no topo do silo).

Deste modo, “proteger” a lona com materiais como terra, telhas ou outra lona é uma alternativa para atenuar a situação caso a lona escolhida não possua tais atribuições.

Por fim, me permito realizar uma conta simplista, embora condizente com a realidade que vejo no campo e no sentido inverso do normal. Imaginemos uma propriedade (pequena) com 30 vacas em lactação (550 kg) em sistema confinado cujo consumo diário dos animais seja de 2,5% do peso vivo e que a dieta é composta por 50% de silagem de milho (33% de MS). A necessidade diária de silagem da propriedade (apenas para as vacas em lactação) é de 625 kg de matéria natural, logo 228 ton. em um ano. Ao considerarmos a produtividade do milho de 47 ton de matéria verde/ha (já descontada as perdas), serão necessários cerca 4,84 hectares (2 alqueires) para alcançar esta produção.

Consideramos agora estes 4,84 hectares de lavoura de milho com uma produtividade de 155 sacos/ha de milho grão. Caso o produtor realizasse a venda do produto (750 sacos) em patamares de preço próximos aos de jan/fev de 2021 (R$ 70,00/sc), apenas o “valor” do milho grão depositado em um silo ultrapassaria os 50 mil reais. Estes 50 mil reais compram (atualmente) um carro popular, um carro novo está sob a lona de um silo, a garagem que cobre o carro é a lona que cobre a silagem, e sendo ela (a lona) a única barreira que separa a silagem do ambiente externo (vilão), me parece lógico que sua qualidade não pode ser negligenciada.

Obs.: As recomendações discutidas neste trabalho não eximem a adoção de outras práticas, apenas sugerem procedimentos pontuais para melhorar a qualidade da vedação do silo.


Fonte: Milk Point.


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